sábado, 19 de agosto de 2017

Histórias reais de psicopatas corporativos: Episódio I



Fala galera,


Em um país com mais de 13 milhões de desempregados, é natural que, em meio a essa crise, as pessoas passem a defender seus empregos com unhas e dentes. 

Mas tenho notado que, de alguns anos para cá, a politicagem, a bajulação e a sabotagem têm tomado proporções absurdas nas empresas.

Hoje vou começar uma série onde compartilho com vocês casos reais que envolvem tudo isso, com o intuito de “mostrar a real” de dentro das corporações, principalmente para os mais novos e para aqueles que tem curiosidade em saber mais sobre os bastidores desse mundo.  

Hoje, na empresa atual, sou um executivo responsável por uma equipe tecnicamente excelente, porém razoavelmente jovem. O lado bom é que conseguimos apresentar resultados muito bons.

Já o lado ruim é que, pelo fato de ser uma equipe jovem, todos tem muito gás para entregar o trabalho, porém não percebem o jogo político, ou a guerra silenciosa nos bastidores entre as pessoas, e vez ou outra acabam se metendo em “presepadas”.  

Um bom exemplo é que muitas vezes eles acabam fazendo favores para outros gerentes, na ingenuidade, acreditando que os mesmos vão auxiliá-los lá na frente, em suas avaliações, ou lembrar de seus nomes para eventuais vagas melhores ou promoções. Um grande engano. Eles raramente, ou nunca fazem isso. Fica a dica.

Vou contar aqui um caso que ocorreu essa semana e que ilustra bem a guerra silenciosa pelo poder, as brigas de egos entre as pessoas e como os “psicopatas corporativos” fazem de tudo para conseguir seus objetivos.

Já há algum tempo, meu time finalizou um projeto que durou alguns meses, tendo entregue uma nova tecnologia, ou aplicação (vou chamar assim, para manter um certo nível de anonimato) que não existia na organização, em nenhum lugar do mundo, apesar desta ser uma multinacional.

No início do projeto, formei um time, onde o líder era um funcionário de minha equipe, tecnicamente excelente e com histórico de bom relacionamento com as pessoas e de “entregar” muito rápido e com qualidade, e solicitei também participantes das áreas interessadas ou que seriam afetadas por essa nova aplicação. Ou seja, formei um time de projeto.

Com o conhecimento de algumas pessoas de meu time que já haviam implementado essa mesma “solução” em outras empresas, desenvolvemos o conceito inicial e o plano para implementação, e, juntamente com o time do projeto, lutamos durante vários meses contra vários obstáculos, inclusive financeiros, até conseguir entregar o projeto.

Após um mês entregue, o projeto já se pagou, evitando uma série de problemas que custariam um bom dinheiro para a companhia sem a tal aplicação em uso. Além do mais, por ser uma solução inovadora, gerou uma grande visibilidade para minha área e para o líder do projeto.

E esta foi a semana que marquei para apresentar o resultado final para a direção da empresa. Faço sempre questão de dar o crédito a quem realmente fez o trabalho e combinei com o líder do projeto que eu faria uma breve introdução e que ele faria o grosso da apresentação.

Mas antes disso, logo de manhã, o líder do projeto me procurou para mostrar a apresentação (powerpoint) que ele havia preparado para explicar toda a evolução, desde a idéia inicial até a entrega do projeto.

A primeira página era somente uma capa, e logo na segunda já quase caio da cadeira: além do meu nome como patrocinador do projeto, ele havia incluído o de outro gerente, também como patrocinador (para quem não sabe, patrocinador, ou sponsor, geralmente é o executivo que ajuda o líder do projeto com as questões mais críticas, principalmente removendo obstáculos nos bastidores, é quem vai buscar recursos financeiros para bancar o projeto, ente outras coisas).

De cara, perguntei ao líder do projeto: Por que o “FULANO” está como sponsor? Ele te pediu? Logo meu funcionário gaguejou e me respondeu: “Sim. Pediu. Você quer que eu tire o nome dele? Ele ajudou a pagar uma parte. E respondi: “LÓGICO!!!. Pode tirar o nome dele!! Ou você acha justo que alguém que somente deu uma ajuda pontual também leve crédito por todo seu esforço e do time que você formou??? Cabe aqui explicar que o FULANO pagou uma parte quando vimos que precisaríamos de mais recursos e levantamos a necessidade para a área de Finanças. Como a área dele tinha verba sobrando no orçamento anual, esse valor iria “morrer” se não fosse utilizado logo. Portanto a solução natural na empresa foi transferir esse budget para nosso projeto.   

Bom, o líder do projeto acabou tirando o nome do Gerente FULANO, como eu pedi, e como este não participaria da apresentação para a direção que eu marquei (pois aproveitei uma reunião onde o chefe dele participa com outros executivos de nível mais alto, para incluir este assunto), seria o último a saber que o nome dele não estaria mais lá. Um problema a menos para mim.  

Porém, eu já sabia que o “buraco era mais embaixo”. Explico: há muito tempo percebo o chefe deste gerente malandro, ou seja um gerente geral (equivalente a diretor em muitas empresas, vou chama-lo aqui de GG), tentando dar o mesmo nível de crédito neste projeto para as pessoas do time dele que somente AJUDARAM neste projeto, ou seja, que fizeram somente o operacional, não conceberam nem criaram nada.

Vale ressaltar que esse cidadão tem o comportamento compulsivo de roubar apresentações de funcionários de outras área e depois aparecer em reuniões com a diretoria, abrir o arquivo e dizer “para resolver o problema X, NÓS FIZEMOS isso e aquilo, foi tudo um trabalho em time”, quando a iniciativa é totalmente de outro departamento e geralmente uma única pessoa deveria ser reconhecida pelo que fez.  

E como ele consegue o material? Pede educadamente para o “dono” compartilhar com ele a título de informação, usando também a força de sua posição, e geralmente os INGÊNUOS sempre enviam, achando que vão ganhar pontos lá na frente, como já falei.

Mas agora vem a “cereja do bolo”: esse gerente geral já tinha uma ESTRATÉGIA MALIGNA montada para tentar roubar os créditos deste grande projeto. Ele só estava esperando para “dar o bote”. E foi justamente na apresentação que marquei para a diretoria.

Chegou o dia da apresentação. Após eu fazer uma breve introdução, o líder do projeto começou a mostrar o conteúdo. Logo na segunda página, com o título “Time do projeto”, ele citou todos os nomes dos envolvidos, começando pelo meu, como sponsor, até os membros operacionais. Nessa hora olhei para a cara do GG, que estava visivelmente irritado ao ver que não havia ninguém do time dele apresentado em algum papel relevante.  

Seguiu a apresentação, muito bem conduzida por sinal, e ao final, o líder do projeto perguntou se os presentes teriam dúvidas ou comentários. A partir daí eu sabia que o psicopata poderia tentar “dar o bote final”.

Após algumas perguntas do diretor geral, o GG vira para ele e fala na maior cara de pau: “essa solução faz parte de uma iniciativa maior, chamada Projeto XYZ (esse nome é fictício, lógico), onde entregaremos não somente essa aplicação, mas outras para as finalidades A, B, C...e que temos trabalhado com representantes de todas as áreas”.

Perceberam a sacada? Algumas semanas antes, sabendo que estávamos perto de entregar nosso projeto, ele havia iniciado um outro projeto, com um escopo maior, onde essa nossa aplicação entraria como uma das soluções propostas para resolver uma gama mais ampla de problemas da organização. Eu fiquei sabendo disso recentemente, e logo saquei a estratégia do demente. E, a essa altura, eu já sabia que provavelmente ele já estaria vendendo isso até para a matriz.

Assim que ele deu o bote, pedi a palavra e, olhando primeiro para o diretor geral falei: “Acho que precisamos esclarecer um ponto, me corrija se estiver errado” – olhando para o líder do projeto agora. “Este projeto surgiu de uma necessidade que vimos lá atrás, e, com o conhecimento de nossa equipe, concebemos, desenvolvemos e implementamos, e esse projeto maior de que estão falando agora não existia. Somente recentemente foi colocado abaixo deste, em um contexto mais amplo. Correto?” – olhando agora nos olhos do GG.

O líder do projeto concordou, e o psicopata resolveu recuar, ao invés de comprar a briga, pois sabia que eu “puxaria a espada” e “iria para o pau” se necessário.  O diretor geral por sua vez,  ficou neutro e não comentou nada, mas não é bobo, sabia exatamente o que estava acontecendo.

Reforço que toda essa conversa foi feita de maneira educada e sem elevar o tom de voz.

Ao final do dia, aliviado, eu sabia que somente uma das primeiras batalhas havia sido ganha, pois, como disse, o maluco já deve ter vendido até para peixes grandes o suposto grande projeto “dele”.

Pelo menos eu garanti que o diretor geral soubesse e ele tem um peso muito grande na avaliação de desempenho anual de todos, sempre fazendo questão de dar seus “pitacos”.

O que vem depois nessa novela eu ainda não sei, mas queria compartilhar aqui que passo por isso com uma frequência incrível, e a quantidade de pessoas, principalmente nos níveis mais altos, e que jogam sujo geralmente é maior do que a de “pessoas do bem”.

Uma vez li um livro sobre psicopatas que falava sobre isso mesmo: geralmente nos níveis mais altos há muitos psicopatas, até mesmo CEOs.

Se eu falar para vocês que passo de 30 a 40% do meu tempo discutindo estratégias com meu chefe, ou pessoas em quem posso confiar, para combater as estratégias contrárias dos “inimigos”, não estou mentindo. É muito tempo e energia gasta. Imagino que nos níveis mais altos, em diretorias, os caras passem mais de 70% “jogando”.

Isso tudo me faz refletir constantemente: até que ponto é saudável viver nesses ambientes? Vale à pena mirar o topo e buscar sempre promoções, mudando constantemente de nível? Será que canalizar toda a energia gasta nos conflitos corporativos em um negócio próprio, por exemplo, não seria um caminho mais feliz?

Se você chegou até aqui, obrigado por ter gasto o seu precioso tempo, e me desculpe pelo texto tão longo. Mas esse não consegui achar uma maneira de resumir sem perder conteúdo que acho importante compartilhar.

Fica a reflexão.

Abraços,

7 comentários:

  1. Respostas
    1. Senhor Bufunfa, o livro se chamava "O psicopata mora ao lado". já li faz uns dois anos, inclusive já passei para a frente em um sebo. Mas li alguns outros textos também na net sobre psicopatas.
      Abraços

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  2. Fala Samurai,

    Seus excelentes posts deveriam ser mais frequentes.

    Li e aprendi bastante com seu texto.

    Estou ficando menos ingênuo também, dia destes uma menina "psicopata" pediu uma apresentação detalhada sobre o projeto que respondo globalmente.

    Eu enviaria numa boa, achando estar colaborando, quando pensei: Tá, mas pra que ela precisa disto, sem me pedir por vias oficiais (e-mail) copiando gerentes e pessoas importantes?

    Aí ela que foi ingênua (tentando me pressionar) disse que era para uma apresentação para um diretor patente alta ...

    Aí eu disse: Beleza, me chama para a reunião, terei todo o prazer em responder e apresentar meu material.

    Haha eu já fui bobo, hoje estou sendo menos.

    Abração e apareça mais!

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    1. Caro VDC,
      Muito bom! Você foi bem astuto ao pedir para a "psicopata" te incluir na reunião. Claro que pelo seu nível na organização, ^você deve saber lidar muito bem com essas jogadas. Quem acaba caindo feito um patinho são os mais novos mesmo. Ou os mais ingênuos.
      Cara, eu queria postar e comentar mais, mas justamente essas guerras políticas estavam consumindo muito da minha energia. A
      Aos poucos estou voltando.
      Obrigado pela visita!
      Abraços

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Essas situações são muito comuns.

    Nunca me esqueço de uma vez em que eu, ainda estagiário, caí de paraquedas em um projeto mal documentado (na real sem documentação alguma) e com problemas séríssimos de relacionamento entre equipes.

    Assumi o operacional do projeto sozinho como estagiário (já vejam aí a incompetência da gerência) e decidi botar ordem na casa. Levantei tudo o que existia na escassa documentação e tudo o que era exigido. Basicamente os membros anteriores deste projeto não fizeram documentação alguma e nem eram cobrados pra fazer pelo gerente que deveria estar delegando tarefas.

    Quando demonstrei toda a deficiência do projeto e sugeri fazer uma reunião com todos os envolvidos para traçar um plano pra colocar tudo nos trilhos, o gerente então responsável pelo projeto solta um sonoro: "Mas nem a pau, assim vocês querem me f%der!". Ele se sentiu extremamente acoado por ter sido desmascarado por um mero estagiário e apelou pra autoridade...

    O projeto continuou na situação lamentável em que sempre esteve e eu lavei minhas mãos. Fazia questão de instaurar o caos e escalar problemas que caiam direto no colo da gerência.

    Aprendi cedo a lidar com essa guerra de egos e apelo à autoridade, muito comum entre gerentes.

    Abraço!

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    1. Wannabe,
      Se o gerente apelou para a autoridade e se sentiu acuado é porque era um incompetente mesmo hein??
      Muito bom seu relato.
      Que bom que você enxerga todas essas brigas de ego e poder. Muitos não sacam isso e acabam sendo usados.
      Abraços

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